15 novembro 2009

Vamos soltar os bichos...


por Haylton Farias

Tenho notado que nós, seres humanos, não podemos soltar os bichos...em todos os sentidos. No sentido literal, todo animal deve ficar preso, no mínimo acorrentado ou solto num espaço limitado, controlado.
Principalmente os selvagens, os não civilizados. E no sentido simbólico, nós, os civilizados, temos que manter os nossos bichos presos, sob controle.
Nós dizemos que o homem é um animal racional.
Porém achamos que somos “seres” racionais, negando o animal, e que controlamos a nossa animalidade com a nossa racionalidade.O estado animal de ser é algo que o homem, pelo menos o ocidental, ainda não experimentou em todo seu processo, com consciência e responsabilidade. Ele pulou esse pedaço de sua história, de seu desenvolvimento. È um estado reprimido, pouco conhecido no homem, que se julga, por sua linhagem divina, um ser para além da natureza. Separado da natureza. Não divino, que seria muita pretensão, mas quase. Um semideus, filho do Deus na terra.
É como se o homem tivesse pulado um estágio de desenvolvimento no seu processo de se tornar humano. Isso precisa ser recuperado, para que ele possa se tornar verdadeiramente “humano”. Precisamos soltar os bichos para que possamos aprender a nos relacionarmos com eles.

Soltar os bichos é bem diferente de deixá-los escapar de nosso controle. Daí que de tempos em tempos o animalesco surge em nós, como vindo de um lugar inimaginável por nós seres superiores. “É um animal, um cavalo, um burro, um selvagem para fazer tal coisa”; julgamos a atitude alheia de um lugar superior que despreza esse lugar inferior. E como superiores fazemos de tudo para ignorar o animalesco que há em nós.
Rejeitando nos outros esse estado inferior de ser.O Animal reprimido se torna animalesco, raivoso, rejeitado, desamado, vingativo. O animal amado, aceito, acolhido é confiável, dócil e afetuoso (Ex: tigres, tubarões, cachorros e cavalos).
O problema não está no animal, mas na relação que estabelecemos com ele. Soltar os bichos é se propor a viver uma nova relação eles. Conviver e não dominar, respeitar e não controlar, co-operar na natureza.
Que relação é esta que temos com nossa animalidade, nossa “anima”, aquilo que nos anima, que nos movimenta, que nos dá ânimo de viver, com nossa alma, enfim, que relação é esta que estabelecemos com a vida? Para quê negamos nossas emoções, aquilo que nos movimenta, nos anima e que pertence a todos os mamíferos.
Quando nos dizemos seres racionais, estamos negando nossas emoções, nossa animalidade, nossa alma e quando nossa racionalidade age de maneira irracional, colocamos a culpa na natureza, à qual dizemos não pertencer.
Viver na terra é um castigo, para entes superiores como nós. Perdemos o Paraíso.
Não é à toa que ao negarmos a vida na terra em nome de uma no céu, negamos a possibilidade de transformar essa vida num paraíso, assim como o paraíso em que os animais vivem, para ficarmos esperando um paraíso imaginário. Transformamos a vida que vivemos num inferno, almejamos o céu e perdemos a terra, pois viver negando a própria vida, cuspindo no prato em que se come, faz com que tudo fique mais amargo e com o mesmo gosto.
Vamos Soltar os Bichos!
E aprender a conviver com as nossas emoções, assumindo-as, nos dando conta delas e, juntos, irmos nos humanizando. Talvez seja essa a ecologia mais necessária no momento, a das nossas mentes, conceitos, crenças, princípios e valores. A mudança da relação conosco mesmo, para mudarmos nossa relação com o outro e com o mundo. Somente dessa maneira poderíamos nos identificar com as tartarugas, as baleias, as árvores e entendermos a necessidade de preservá-las.
Perdê-las é como perder um pedaço de si mesmo, só que não nos damos conta, pela ilusão de separação e superioridade. Julgamos a nossa racionalidade como a supremacia da inteligência. Nos pensamos como os seres mais inteligentes da natureza.

Pois bem, dizem que uma vez fizeram uma disputa entre os animais para saber quem era o mais inteligente. Ficaram para a final os golfinhos e os homens, indignados com a comparação e o status de animal. Argumentaram então que tinham inventado a roda, a pólvora, o dinheiro, a eletricidade, os motores a vapor e a diesel, armas nucleares, os computadores de última geração, enfim, toda uma cultura e que por isso deveriam ser considerados os mais inteligentes. Os golfinhos então responderam sorrindo que eles se consideravam os mais inteligentes porque eles exatamente não tinham feito nada disso.
Quem sabe, soltando o bicho que há em nós, nos colocando mais próximos da natureza, da nossa própria natureza, possamos experimentar um pouco do paraíso em que eles vivem.
Para isso estamos aqui.
Para que vivemos a vida? Para que um tigre vive a vida? Para que uma borboleta vive? Uma rosa, uma orquídea?
Por acaso um rosa ou uma orquídea nasce para ser a melhor das rosas ou orquídeas no ranking da natureza?
Para ser a primeira das rosas ou orquídeas no mercado de flores do universo?
Para que nasce uma orquídea? Um tigre? Uma borboleta?
Para que você nasceu?
Então...vamos soltar os bichos, aproveitar o paraíso e tornarmo-nos mais humanos.

2 comentários:

J. Araújo disse...

Ney, um belo texto. Com certeza devemos, sim, soltar os bichos no bom sentido. Até por que somos o pior dos bichos. Os bichos de verdade que vive na selva não tem a maldade como nós temos.

Os bichos de verdade não matam por vingança, isso só acontece com a raça que se diz humana. Somos os unicos seres pensantes que é capaz de usar o pensamento também para fazer maldade.

Bom demais essa esplanação para que possamos refletir. Obrigado pelos comentários; nós blogueiros, vc sabe, somos loucos por comentários. Escrevemos e gostamos de dividir nossas opiniões com o maior número possível de leitores.

Abraço meu amigo e continue comentando sempre que puder.

FERNANDA & POEMAS disse...

QUERIDA HELY, MARAVILHOSO TEXTO... ADOREI...!
VOTOS DE UMA FELIZ SEMANA...!
ABRAÇOS DE CARINHO E TERNURA,
FERNANDINHA