30 novembro 2009

A Alegria na Tristeza

Mais um texto da Martha Medeiros para iniciarmos uma nova semana.

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.
Martha Medeiros

5 comentários:

Rimbaud no Café de Flore disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rimbaud no Café de Flore disse...

Olá, vivemos uma existência de paradoxo em paradoxo. Depois das tão cultivadas "diferenças" pelo hedonismo individualista ainda não fomos capazes de perceber o quanto humanamente precisamos das mesmas simples emoções para vivermos, na centelha de tempo que nos é permitida, a experiência da felicidade.

Este é o meu blog
http://rimbaudcafedeflore.blogspot.com/ se entenderes dar uma pestanada (...) depois tu dirás o que entenderes.

Fernanda disse...

Querida amiga Heli,

Verdade, pior do que sentir tristeza é não sentir nada.
Às vezes sinto-me nostálgica, até sem saber porquê, mas logo passa.

Peço desculpa da minha ausência, mas estou muito mais ocupada com as minhas aulas...espero arranjar sempre um tempinho para vocês meus amigos.

Beijão

heli disse...

Rimbaud no Café de Flore
Que bom que você veio nos visitar.

Pois é, vemos tanto egoísmo a superar o altruísmo e tanto ódio a suplantar o amor. Por isso, as relações interpessoais estão a se deteriorar com velocidade nunca antes vista e a falsa idéia de que não devemos pensar no outro, mas apenas em nós mesmos, encontra tamanha recepção nos ouvidos da humanidade.

Já dei uma passada em seu blog e li seu texto, depois volto lá para comentar.
beijos,

heli disse...

Ná,
Sempre é bom tê-la conosco.
Já estava sentindo falta dos seus comentários e de suas frequentes visitas.
E quem não se sente nostálgico de vez em quando?rs
Beijos