21 março 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Fernando Pessoa


Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda,
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de frete,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco,
Eu que tenho que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideus!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traído – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

2 comentários:

ney disse...

Encontrei uns comentários interessantes sobre esse texto do Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)no site http://antoniocaldas.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=9:
"Hoje, mais do que nunca, como que por um tácito contrato social, é proibido falar no que não se pareça alegria, é proibido sofrer, reclamar, indignar-se, ou mesmo falar em tais coisas, mesmo com a profunda consciência de que não se é nada, nunca se será nada e que não se pode querer ser nada, como dito em Tabacaria. Atualmente, o que vemos é uma quantidade imensurável de pessoas negando aos quatro cantos as suas condições de vencidas. Arre, estou farto de semideuses!”. Acho que já ouvi esse tal de "HOJE, MAIS DO QUE NUNCA"... (rs).
O que encontramos em Poema em Linha Reta, pouco perto de ser uma expressão direta e pungente do niilismo semelhante ao encontrado em Tabacaria, é um sóbrio grito de acusação a uma sociedade coberta pelo véu das aparências, uma sociedade usuária de máscaras, na qual o poeta aventura-se tirar a sua própria. Isto é posto nos primeiros versos, nos quais o poeta nos diz: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E daí ele segue uma enumeração serial de derrotas sofridas pelo poeta, que afirma, por isso, não encontrar um igual a ele neste mundo: um mundo de semideuses, que nunca foram covardes, nem errôneos, nem ridículos.
Poema em Linha Reta aponta para a realidade de uma sociedade falseada, uma sociedade composta, no seu cerne, pelo uso distorcido da própria característica heteronímica de Fernando Pessoa: uma sociedade personificada no sentido primevo de persona: o seu antiguíssimo conceito de máscara utilizada para que o indivíduo se apresente na sua sociedade. Esta heteronímia utilizada pela sociedade é uma forma de esconder suas próprias mazelas. Álvaro de Campos, no Poema em Linha Reta, vai apontar o que, segundo ele, é uma mazela comum entre os seus semelhantes: o uso da máscara para a omissão das próprias mazelas humanas:
Atualíssimo, encontramos a cada momento na nossa sociedade representantes cabais daqueles que são acusados por Álvaro de Campos. A nossa sociedade atual, uma sociedade perversa, escangalhada e moribunda, está repleta de mascarados semideuses e superseres em um jogo de fingimento no qual ninguém confessa uma derrota, uma vileza ou um enxovalho, mas na qual todos sempre se mostram como campeões:
CONCLUINDO: Longe de ser um poema de derrotados, Poema em Linha reta é um poema reto e sóbrio, acusador de uma sociedade decadente que não se assume como tal para então a melhor, mas, diversamente, utiliza-se de máscaras para ocultar a sua realidade decaída, fazendo desta própria decadência motivo de orgulho e de supremacia, não estamos mais em uma época de indivíduos elevados, solitários, auteros, interessantes. Lembrando o saudoso Oscar Wilde da língua inglesa, podemos dizer que vivemos em um mundo no qual os melhores já perderam as suas convicções, enquanto que os piores estão cheios de uma grande intensidade, e sobre isto já estão sendo apontadas teorias opostas ao processo de pocotização pelo qual sofre a sociedade brasileira, e também contra o nosso atual regime de mediocracia.
Pois é, esse Fernando Pessoa era mesmo fantástico, um homem a frente do seu tempo, e que parece já conhecia o nosso. ney/

Dulce disse...

Ney
é por tudo isso que Pessoa ocupa o pedestal de Poeta Maior no mundo. Acho que muito mais do que a frente do seu tempo, ele é atemporal.
bjs.