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Se tivesse sido combinado, não daria tão certo. "Olhar estrangeiro", documentário sobre os clichês perpretados pelos filmes internacionais que têm o Brasil como personagem, entra em cartaz hoje - apenas três dias depois da divulgação do trailer de "Turistas", produção americana em que um grupo de mochileiros sofre o golpe "Boa noite, cinderela" em uma viagem ao país.
Baseado no livro "O Brasil dos gringos: imagens no cinema" e dirigido por Lúcia Murat ("Quase dois irmãos"), o documentário mostra que a visão estereotipada presente em "Turistas" é a regra dos filmes estrangeiros que têm o Brasil como cenário ou que citam de alguma forma o país.
O problema não é a tanta a violência mostrada em "Turistas" - mesmo porque ela está presente de maneira muito mais acentuada nos filmes brasileiros. O problema é resumir o Brasil a apenas dois ou três de seus aspectos: a sexualidade feminina, a natureza exótica, a alegria e musicalidade dos seus habitantes.
Dê uma olhada na foto acima, uma cena tira de "Feitiço no Rio" (Blame it on Rio), de 1984, um dos filmes de maior sucesso rodados no Brasil. Nela, os personagens de Michael Caine (de camisa social) e Joseph Bologna passeiam pela praia do Arpoador.
Todos os três elementos "típicos" do Brasil estão lá: as mulheres estão todas de topless, uma delas (logo abaixo de Bologna) tem um macaco pendurado em seu ombro e um pouco à esquerda há um sujeito tocando flauta. O Brasil dos gringos resumido em uma imagem.
"Olhar estrangeiro" traz trechos curiosos desse e de outros filmes estrangeiros sobre o Brasil. Como "Próxima Parada: Wonderland" (1999), em que um brasileiro interpretado por um ator latino (José Zúñiga) chaveca uma americana (Hope Davis) cantando uma bossa nova com sotaque espanhol e convidando-o para conhecer a praia de "Su Paulo". Ou "Brenda Starr" (1989), passado no Brasil, mas filmado na Flórida, em que a protagonista (Brooke Shields) desliza por um rio montada em dois jacarés.
Para tentar analisar a razão de tantos clichês perpetrados sobre o Brasil, Murat inverte a câmera em direção aos estrangeiros. A diretora entrevista diversos profissionais envolvidos com os filmes rodados no país, como os atores Michael Caine, Hope Davis e Jon Voight ("Anaconda"), os diretores Greydon Clark ("Lambada - A dança proibida"), Zalman King ("Orquídea selvagem"), Robert Ellis Miller ("Brenda Starr"), Philipe de Brocca (do francês "O homem do Rio") e Philippe Clair (do também francês "Si tu vas à Rio, tu meurs", que tinha como estrela Roberta Close).
Das entrevistas, surge a certeza de que a grande maioria dessas pessoas não fizeram sua lição de casa sobre o Brasil. Caine, por exemplo, aponta a beleza do povo brasileiro como razão para os clichês sobre o país. De Brocca diz que não consegue imaginar um filme com um brasileiro trabalhando. King conta que já chegou aqui com idéias preconcebidas sobre temas como sexo, candomblé e sexo. Decidiu mantê-las mesmo depois de perceber que elas não correspondiam à realidade.
Nesse cenário de estereótipos, Murat aponta duas exceções, não por acaso dois filmes que nunca foram concluídos por seus diretores. O primeiro é o famoso "It's all true", do norte-americano Orson Welles, que registrou belíssimas imagens sobre jangadeiros do Ceará e o carnaval do Rio.
O segundo é desconhecido "Le Grabuge", rodado pelo francês Édourd Luntz no Rio em 1968. A Fox, produtora do filme, não gostou da visão realista do diretor e tentou modificar o filme. Luntz ganhou na Justiça o direito de fazer sua versão, mas a Fox já havia destruído o negativo.
O lado mais saboroso de "Olhar estrangeiro" é o aspecto anedótico dos filmes e das entrevistas. Mas, em certo grau, ele repete o problema das produções que retrata: a superficialidade. Murat consegue demonstrar a ignorância das produções e dos profissionais que tentaram retratar o país. Mas não vai muito fundo na hora de investigar as causas do problema.
O filme deixa de lado uma questão fundamental: em que medida os brasileiros ajudaram a criar essa imagem estereotipada divulgada pelos estrangeiros? Até que ponto o Brasil dos gringos é também um produto nacional?
[10 comentários]Reportagem do NY Times, parcialmente reproduzida no blog da jornalista Tania Menai, discute o hábito dos casais de caminharem de mãos dadas, raro em cidades como Nova York. Depoimento colhido com Drew Fitzherbert, 21 anos, indica que o gesto é considerado comprometedor porque expressa uma relação pública. Os especialistas entrevistados pelo jornal garantem que há diferenças entre andar na rua de mãos dadas e dar as mãos no cinema, por exemplo.
Embora reconheça ser impossível quantificar se diminuiu ou não o número de casais que se dão as mãos, o diretor do serviço de psicologia da Universidade de Cornell, Gregory T. Eells, lembra que costuma ver muito mais gente na rua segurando um telefone celular do que dando as mãos. Peter Shawn Bearman, diretor do Instituto de Pesquisas Sociais e Econômicas da Universidade de Clumbia, diz que andar de mãos dadas em cidades cheias como Nova York é impraticável. Para ele, talvez a proporção de casais de mãos dadas possa estar diminuindo miuto mais por causa da densidade demográfica dos grandes centros urbanos do que por uma queda no valor romântico do gesto.
Segundo Tania Menai, moradora de Nova York há mais de 10 anos, o hábito de dar as mãos é mais facilmente encontrado em casais homossexuais do que hetero. Para os gays, andar entrelaçando os dedos seria uma forma dupla de expressão: compromisso e liberdade de assumir a relação.
Muitos heteros americanos continuam andando lado a lado, com as mãos no bolso. É sempre difícil saber se são irmãos, amigos, ou, quem sabe, casados.
Por aqui, ainda temos fortemente enraizada a cultura de expressar intimidade em público: os dois beijinhos nos amigos, impensáveis em países europeus, por exemplo. Mas com a estabilidade das relações afetivas ameaçadas, será que também vamos nos tornar americanizados na solidão e na distância?
Gesto de maior intimidade até do que o sexo, andar de mãos dadas seria sinal máximo de afeto, carinho, amor, consideração e respeito. Um conjunto de coisas que, infelizmente, estão em extinção nas relações humanas.
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