06 fevereiro 2010

Segue um texto que recebi do amigo Carlos Moura.

O Vendedor de Palavras

Fábio Reynol - jornalista especializado em ciências e escritor.


Um comerciante decidiu ajudar a combater a "indigência lexical" do país,
mas ao melhor preço do mercado: ouviu dizer que o Brasil sofria de uma
grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando
que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na
praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande,
"indigência lexical".

Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia
fantástica. Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar
espaço entre os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra de lingerie
instalou a sua: mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia:

- Histriônico - apenas R$ 0,50.
Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos
parasse e perguntasse:
- O que o senhor está vendendo?
- Palavras, meu senhor. A promoção do dia é "histriônico" a cinqüenta
centavos, como diz a placa.
- O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de
todos.
- O senhor sabe o significado de "histriônico"?
- Não.
- Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já tem ou
coisas de que elas não precisem.
- Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.
- O senhor tem dicionário em casa?
- Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.
- O senhor estava indo à biblioteca?
- Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.
- Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a
alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta
centavos de real!
- Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?
- Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá
de jogá-la fora e o feijão caruncha.
- O que pretende com isto? Vai ficar rico vendendo palavras?
- O senhor conhece Nélida Piñon?
- Não.
- É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o país sofre
com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.
- E por que o senhor não vende livros?
- Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado,
portanto eu as vendo no varejo.
- E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras,
não enchem a barriga.
- A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento.
Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia,
trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por
cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como
trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado.

Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela
carinha de dona-de-casa, ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira.
Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade. Mas
nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em
casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga.

Suponho que para cada pessoas que se dispõe a comprar uma palavra, pelo
menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano
de trabalho.
- O senhor não acha muita pretensão? Pegar um...
- Jactância.
- Pegar um livro velho...
- Alfarrábio.
- O senhor me interrompe!
- Profaço.
- Está me enrolando ,não é?
- Tergiversando.
- Quanta lenga-lenga...
- Ambages.
- Ambages?
- Pode ser também "evasivas".
- Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!
- Pusilânime.
- O senhor é engraçadinho, não?
- Finalmente chegamos: histriônico!
- Adeus.
- Ei! Vai embora sem pagar?
- Tome seus cinqüenta centavos.
- São três reais e cinqüenta.
- Como é?
- Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar
para o senhor. Só "histriônico" estava na promoção, mas como o senhor se
mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.
- Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
- É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?
- Tem troco para cinco?

3 comentários:

heli disse...

Jards.

Achei fantástico esse texto.Muito inteligente e bem humorado.

ney disse...

Mandou bem, Jards.
E o VENDEDOR DE PALAVRAS foi adaptado para o teatro rendendo frutos e premio. E de Porto Alegre pretendem traze-lo para SAMPA, conforme o autor.

Amapola disse...

Bom dia.
Maravilhoso...
Tem um ritmo gostoso, fazendo lembrar o diálogo do "Alto da Compadecida"