31 maio 2009

FINAL DE TARDE DESTE DOMINGO DE OUTONO



Clique sobre as imagens para ampliá-las (fotos ney).
.
No final da tarde deste domingo de outono, 31/05/09, pedalando na orla da Praia de Icarai - Niterói-RJ., fotografei essas imagens. ney/
.
ORAÇÃO AO SOL (parte)

Sol, rei astral, deus dos sidérios Azues, que fazes cantar de luz os prados verdes, cantar as águas! Sol imortal, pagão, que simbolizas a Vida, a Fecundidade! Luminoso sangue original que alimentas o pulmão da Terra, o seio virgem da Natureza! Lá do alto zimbório catedralesco de onde refulges e triunfas, ouve esta Oração que te consagro neste branco Missal da excelsa Religião da Arte, esmaltado no marfim ebúrneo das iluminuras do Pensamento.
Permite-me que um instante repouse na calma das Idéias, concentre cultualmente o Espírito, como no recolhido silêncio das igrejas góticas, e deixe lá fora, no rumor do mundo, o tropel infernal dos homens ferozmente rugindo e bramando sob a cerrada metralha acesa das formidandas paixões sangrentas...
... Pelo cintilar de teus raios pelas ondas fulvas, flavas, ó Espírito da Irradiação! Pelos empurpuramentos das auroras, pela clorose virgem das estepes da Lua, pela clara serenidade das Estrelas, brancas e castas noviças geradas do teu fulgor, faculta-se a Graça real, o magnificente poder de rir - rir e amar, perpetuamente rir... perpetuamente amar...
Cruz e Souza - Veja na íntegra em http://pt.wikisource.org/wiki/Ora%C3%A7%C3%A3o_ao_sol

EDUCAR II

"A primeira tarefa da educação é ensinar a ver...
É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo...
Os olhos têm de ser educados para que nossa alegria aumente.
A educação se divide em duas partes: educação das habilidades e educação das sensibilidades...
Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidads são tolas e sem sentido".
Rubem Alves

EDUCAR I


“Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu.
O educador diz: ”VEJA”-e, ao falar, aponta.
O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu.
Seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente...
E ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria-que é a razão pela qual vivemos.”

Rubem Alves

30 maio 2009

Como pedir uma pizza em 2015

* Telefonista: Pizza Hot, boa noite!
* Cliente: Boa noite! Quero encomendar pizzas....
* Telefonista: Pode me dar o seu NIDN?
* Cliente: Sim, o meu número de identificação nacional é 6102-1993-8456-54632107.
* Telefonista: Obrigada, Sr.Lacerda. Seu endereço é Avenida Paes de Barros, 1988 ap. 52 B, e o número de seu telefone é 5494-2366, certo? O telefone do seu escritório da Lincoln Seguros é o 5745-2302 e o seu celular é 9266-2566.
* Cliente: Como você conseguiu essas informações todas?
* Telefonista: Nós estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
* Cliente: Ah, sim, é verdade! Eu queria encomendar duas pizzas, uma de quatro queijos e outra de calabresa...
* Telefonista: Talvez não seja uma boa idéia...
* Cliente: O quê?
* Telefonista: Consta na sua ficha médica que o Senhor sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a sua saúde.
* Cliente: É você tem razão! O que você sugere?
* Telefonista: Por que o Senhor não experimenta a nossa pizza Superlight, com tofu e rabanetes? O Senhor vai adorar!
* Cliente: Como é que você sabe que vou adorar?
* Telefonista: O Senhor consultou o site 'Recettes Gourmandes au Soja' da Biblioteca Municipal,dia 15 de janeiro, às 4h27minh, onde permaneceu conectado à rede durante 39 minutos. Daí a minha sugestão...
* Cliente: OK está bem! Mande-me duas pizzas tamanho família!
* Telefonista: É a escolha certa para o Senhor, sua esposa e seus 4 filhos, pode ter certeza.
* Cliente: Quanto é?
* Telefonista: São R$ 49,99.
* Cliente: Você quer o número do meu cartão de crédito?
* Telefonista: Lamento, mas o Senhor vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu cartão de crédito já foi ultrapassado.
* Cliente: Tudo bem, eu posso ir ao Multibanco sacar dinheiro antes que chegue a pizza.
* Telefonista: Duvido que consiga! O Senhor está com o saldo negativo no banco.
* Cliente: Meta-se com a sua vida! Mande-me as pizzas que eu arranjo o dinheiro.. Quando é que entregam?
* Telefonista: Estamos um pouco atrasados, serão entregues em 45 minutos. Se o Senhor estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto não é aconselhável, além de ser perigoso...
* Cliente: Mas que história é essa, como é que você sabe que eu vou de moto?
* Telefonista: Peço desculpas, mas reparei aqui que o Sr. não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga, e então pensei que fosse utilizá-la.
* Cliente: @#%/§@&?#>§/%#!!!!!!!!!!!!!
* Telefonista: Gostaria de pedir ao Senhor para não me insultar... Não se esqueça de que o Senhor já foi condenado em julho de 2006 por desacato em público a um Agente Regional.
* Cliente: (Silêncio)
* Telefonista: Mais alguma coisa?
* Cliente: Não, é só isso... Não, espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.
* Telefonista: Senhor, o regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 3095423/12, nos proíbe de vender bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...
* Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou me atirar pela janela!!!!!
* Telefonista: E machucar o joelho? O Senhor mora no andar térreo!

(Luiz Fernando Veríssimo)

Era uma rua tão antiga... MARIO QUINTANA

Todos nós temos em nossas lembranças uma "rua antiga", a de nossa infância, de nossa juventude, aquela que acolheu nosso despertar para a vida, nossos primeiros sonhos. E Quintana não fugiu a regra.


Era uma rua tão antiga, tão distante
que ainda tinha crepúsculos, a desgraçada...
Acheguei-me a ela com este velho coração palpitante
de quem tornasse a ver uma primeira namorada

em todo o seu feitiço do primeiro instante.
E a noite, sobre a rua, era toda estrelada...
Havia, aqui e ali, cadeiras na calçada...
E o quanto me lembrei, então, de um amigo constante,

dos que, na pressa de hoje, nem se usam mais
como essas velhas ruas que parecem irreais
e a gente, ao vê-las, diz: “Meu Deus, mas isto é um sonho!”

Sonhos nossos? Não tanto, ao que suponho...
São os mortos, os nossos pobres mortos que, saudosamente,
estão sonhando o mundo para a gente!

29 maio 2009

POETA NA MADRUGADA



Clique sobre a imagem para ampliá-la (foto ney). Lua vista da minha janela.
.
Solilóquio do Poeta na Madrugada

Não tenho nada importante para dizer nesta madrugada. Geralmente, nas madrugadas é que os sonhos, como os corpos dos mortos vem à tona flutuar. Não tenho nada importante pare dizer nesta madrugada. Sobre a superfície de minha alma, brunida como a face de um lago, voga apenas a felicidade - cisne branco, solitário e pensativo. Desculpem-me: mas importante para o poeta, é esse vinho de palavras - seu vício - com que sente necessidade de embriagar o coração. Não tenho nada importante para dizer. Entretanto eis-me aqui, barco a deriva dando à praia deserta sem amarras sequer para atirar. Seresteiro boêmio - minha máquina de escrever é meu instrumento, música e canto em que me transmudo, muro de lamentações de minhas mágoas, guizo de minhas fantasias. Não tenho nada importante para dizer, mas algo em mim me trouxe até ela - esse impulso que leva o crente ao templo para conversar com Deus, num momento de desamparo ou de gratidão. Bem sei que não é importante que eu me sinta assim, leve e pleno dentro da noite, sem maiores razões para me sentir feliz - feliz porque as coisas dormem, e a paz ao redor é acariciante. E há ainda o meu rádio - companheiro e personagem de tantas vigílias, onde um piano, agora, esta declamando poesia, e a noite - sonho múltiplo e silencioso da vida, a pairar em tudo... Você já experimentou essa sensação de se encontrar consigo mesmo sem testemunhas, como quem esta deitado sobre relvas a olhar o céu distante? - apenas alguns momentos inconseqüentes, passando, que viraram lembranças, e esvoaçam como gazes? E aquela certeza de que ninguém sofre por você, de que nada deve, de que pode gastar perdulariamente o coração, como um jogador, que todos os que ama, ou os que o podem amar, dormem tranqüilos e amanhã será um novo dia, e cada encontro um bom-dia! para todos! Não tenho nada importante para dizer. Só essa vontade de encontrar o coração sem interlocutores, de falar para ninguém, e sem resposta - o espírito como um monge em êxtase a saborear a noite, como uma bebida quente docemente -o pensamento como um budista sentado sobre os joelhos à espera do Nirvana. Meu amor foi dormir. Era isso talvez o que eu queria dizer e não sabia, e isto talvez explique esta vaga euforia em que me sinto flutuar na madrugada. Meu amor foi dormir embalada naquele doce cansaço que lhe teci como uma rede, e eu só, ainda resisto, mais forte, pelo prazer de prolongar os acordes de uma felicidade que canta sozinha, como um bêbedo na madrugada. Coisa boa a gente se sentir assim, o coração embriagado sem ter bebido, em paz com a vida, grato ao momento que passa, (nuvem alta, distante), sem filosofias. Feliz, só isto. Sem precisar sequer entender. Não tenho nada importante para dizer esta madrugada.
Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro"Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"Vol. IV - 1a edição 1965 )

ERA UMA VEZ... Você acredita em contos de fadas?


Era uma vez...

Em tempo de contos de fada, começaria este texto com: “Era uma vez”... e ficaria assim:
Era uma vez, uma jovem desengonçada que vivia num casarão encantado e que tinha dentro de si um amor, tão desengonçado quanto ela, porque escondido, secreto, platônico e sem esperanças. Era uma vez um pequeno príncipe encantado que nem se dava conta de um coraçãozinho que saltava à sua simples presença, porque o seu próprio tinha lá outros motivos para saltar. Era uma vez lágrimas, sorrisos, ternura, tudo reprimido no pequeno coração da menina...
E, como nos contos de “Era uma vez”, o tempo também passou, carregando com ele toda a poeira que sempre paira sobre o tempo nos contos de fada. e a menina cresceu, o príncipe também e ambos foram viver suas vidas. Mas no coraçãozinho da menina o príncipe permaneceu encantado.
E décadas se passaram, vidas transcorreram, famílias se formaram, amores surgiram e se foram, e o príncipe continuou encantado.
E como a menina tivesse uma fada madrinha, esta um dia resolveu dar-lhe um presente, uma presença,. e assim, do nada, a um toque de sua varinha de condão, transportou o príncipe de outras plagas para o canto aonde a menina escondia suas saudades, sua juventude, num sereno caminhar pelo outono de sua vida.
E o príncipe não era mais príncipe. Trazia no rosto as marcas do tempo, no olhar antes atrevido, uma dor escondida pelas perdas que a vida lhe impusera. Era agora um monarca que regia seu reino com sabedoria e paz. A paz que ela sentiu ao olhar dentro daqueles olhos tristes. A paz que ela sentiu ao toque de sua mão, no abraço amigo e terno que recebeu...
Era uma vez... uma doce e sábia fada madrinha que venceu o tempo e colocou num coração que permanecia menino a ternura de uma noite de serena convivência e terno partilhar de momentos de lembranças, de afeto, de doce amizade, numa esquina qualquer dos caminhos que a vida percorre..

Era uma vez... Era uma vez...

Dulce Costa / maio de dois mil e nove

A VIDA QUE EU SONHEI


Clique sobre a imagem para ampliá-la (foto ney)

A VIDA QUE EU SONHEI

Eu sonhei para mim, uma vida discreta num lugar bem distante, a sós, tendo-te ao lado - num castelo que fiz lá num reino encantado, nesse reino que eu chamo o coração de um poeta...Sonhei... Vi-me feliz na solidão de asceta, bem longe deste mundo, a rir, despreocupado... acordando a escutar no arvoredo o trinado das aves, e a dormir fitando a lua inquieta...Vivia na ilusão daquele que ainda crê, na vida, e o meu amor, eu o tinha idealizado no romance de um lar coberto de sapê... Mentiras que eu sonhei!... No entanto hoje me ponho muita vez a pensar no tal reino encantado e sinto uma saudade imensa do meu sonho!... J.G. de Araujo Jorge.(Fonte de todas as poesias:Meu Céu Interior", 1ª ed., set. de 1934.)

BALADA DA CHUVA


Clique sobre a imagem para ampliá-la (foto ney)
E chegou a chuva fina, anunciando a nova estação, um inverno que no Rio nem é tão frio. Convite ao aconchego do lar, um bom filme, um jantar à luz de velas. Lá fora as sombrinhas coloridas, a terra molhada, a natureza se renovando...
"Balada da Chuva"
A tarde se embaça: - um pingo, outro pingo, respinga um respingo de encontro à vidraça; um pingo, outro pingo, e a chuva aumentando e eu nada distingo,- respinga um respingo tinindo, cantando de encontro à vidraça. A noite esta baça e a chuva enervante batendo, batendo, constante, cantante de encontro à vidraça. A terra se alaga o, céu se nevoa, e a chuva é uma vaga fininha, descendo, parece garoa! ... parece fumaça!- e as águas subindo, e as poças subindo e a chuva descendo e a chuva não passa! O dia surgindo, manhã turva e baça. A chuva fininha miudinha, miudinha, parece farinha lá fora caindo, através da vidraça. A tarde está escura, a noite está baça, e as brumas de um tédio, de um tédio sem cura, talvez sem remédio, minha alma esfumaça:- um dia, outro dia e os dias passando em lenta agonia, segunda a domingo; um pingo, outro pingo, respinga um respingo, batendo, cantando, mil dedos tocando de encontro à vidraça...-que chuva! que chuva! e a chuva não passa! Constante, cantante caindo distante nas folhas molhadas, nas poças paradas despidas e nuas, e murmurejante rolando nas ruas;-um pingo, outro pingo na lata cantando goteira se abrindo pingando, pingando, batendo, batendo, tinindo, tinindo parece um tinido, de taça com taça, e a chuva chovendo e a chuva não passa! O vento nas folhas de leve perpassa, e as gotas nos fios rolando, escorrendo, lá fora estou vendo através da vidraça,- que dias sem alma!- que noites sem graça! e a chuva, que calma!chovendo, chovendo não passa! não passa! A terra está envolta nas brumas de um véu, de um véu de viúva que o dia escurece, e a noite enfumaça.- E' a chuva que chove, e do alto se solta descendo, descendo, rolando, escorrendo nos olhos do céu...Nos olhos do céu e no olhar da vidraça!-que chuva! que chuva! parece um dilúvio, quem sabe? - parece que a chuva não passa!( Poema de J. G. de Araujo

É URGENTE O AMOR


Clique sobre a imagem para ampliá-la (foto ney)
É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer.Eugénio de Andrade (1923-2005)

Como um noite pode ser agradável!...


Amizade, carinho, bem-querência são coisas que guardamos no coração e, embora achemos que são passados, um dia nos surpreendemos com a força com que voltam a nos envolver numa curva do caminho

Hoje a noite foi especial, de re-encontro, de longas e boas prosas, de matar saudades. Um jantarzinho, nada mais que um espaguete "al sugo" acompanhado de um bom vinho – a salada ficou intocada – e uma velha receita de família (pudim) como sobremesa. Um cafezinho para encerrar e depois a prosa foi se estendendo até quase a madrugada.
E ainda ficou prosa para uma próxima vez que, certamente, não vai levar outros tantos e tantos anos para acontecer.. Coisas simples, que parecem banais, que tornam um momento tão especial.

MESTRE


"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende".


Cristóvam Buarque - Vergonha de quem?

No sábado passado, estava em Londrina, no Paraná. Lá, vi num adesivo de carro o lema: “Tenho vergonha dos políticos brasileiros”. Pensei em copiá-lo, adaptando o texto para: “Tenho vergonha dos motoristas brasileiros”.
Afinal, se temos vergonha dos políticos, tenhamos também dos motoristas, já que somos o país com maior índice de assassinatos no trânsito. Nossos motoristas são tão assassinos quanto os políticos são ladrões. Mas não vou generalizar: há motoristas cuidadosos, e há políticos decentes.
Pensei que a lista de adesivos poderia ser bem maior. Alguns exemplos seriam: “Tenho vergonha dos profissionais liberais brasileiros”, porque nos perguntam se queremos pagar com ou sem recibo; ou “Tenho vergonha dos contribuintes brasileiros”, porque aceitam sonegar impostos; ou “Tenho vergonha dos alfabetizados brasileiros”, porque são capazes de conviver tranquilamente com 14 milhões de compatriotas incapazes de ler, de reconhecer a própria bandeira. Ou ainda, “Tenho vergonha dos eleitores brasileiros”, porque foram eles que elegeram os políticos que envergonham os brasileiros.
Mas considerei que estava generalizando, e pensei em outro adesivo: “Tenho vergonha dos brasileiros que generalizam”.
O adesivo que vi em Londrina não estava errado. Hoje em dia, os motoristas têm razão em sentir vergonha de nós, políticos brasileiros. Assim como nós temos o direito de sentir vergonha dos motoristas. Mas esses adesivos que imaginei só se aplicam se atribuirmos a toda categoria os defeitos de alguns de seus membros. A diferença entre os políticos e as demais categorias é que, embora seja um erro generalizar, no que se refere ao nosso comportamento ético, é correto generalizar nossa incompetência para administrar o País, para eliminar a corrupção, para acabar com as vergonhas que sentimos. É um erro considerar que o comportamento corrupto está generalizado entre todos os políticos, mas é correto generalizar a responsabilidade dos políticos na aprovação das políticas públicas que fazem do Brasil um país atrasado, dividido, não-civilizado, desigual.
Aquele motorista de Londrina com o adesivo no carro atribuiu incorretamente o comportamento corrupto a todos os políticos. Ele certamente nem pensou em generalizar a incompetência que impede as lideranças políticas de mudarem os rumos do Brasil. Certamente, aquele motorista está incomodado com os políticos que se apropriam do dinheiro público, mas é bem possível que aprove as políticas orçamentárias que constroem mais viadutos do que escolas. Aquele motorista não deve se incomodar com políticas que o beneficiam - como a redução do IPI de automóveis -, mesmo que isso reduza recursos que atenderiam as necessidades da população pobre. Ele se declara contra a corrupção no comportamento dos políticos, mas é conivente com a corrupção nas prioridades das políticas públicas que o beneficiam.
O adesivo certo seria “tenho vergonha das políticas públicas brasileiras e dos políticos que as criam e aprovam, beneficiando a atual minoria privilegiada, e prejudicando a maioria excluída e as gerações futuras, que ficarão sem os recursos que estamos desperdiçando”. Outra sugestão de adesivo seria “tenho vergonha de ser mais um brasileiro que incinera florestas e cérebros”. “Tenho vergonha de queimarmos, por minuto, o equivalente a seis campos de futebol na Amazônia, e 60 cérebros de crianças, que são jogadas para fora da escola.”
Mas esses adesivos, além de muito compridos, não seriam bem compreendidos, porque, com nosso baixo nível de educação, somos incapazes de entender nuances e detalhes. Só entendemos as generalizações simplificadas.
Talvez o adesivo certo fosse “tenho vergonha do grau de deseducação dos brasileiros”, até porque essa é uma generalização bastante aceitável. Porque a deseducação dos brasileiros que não foram educados; ou dos que receberam educação, mas não a usam; ou a utilizam apenas em benefício próprio, sem nenhuma consideração pelo Brasil - presente e futuro - é, sim, generalizada.
Cristovam Buarque é senador (PDT-DF)

28 maio 2009

Censo Escolar(Clicar aqui)


MEC: Um em cada cinco professores não pode dar aulas, diz Censo Escolar 2007


Publicada em 27/05/2009 às 20h26m

Demétrio Weber

BRASÍLIA - Um em cada cinco professores de educação básica (20,3%) não poderia dar aulas, se a legislação fosse levada ao pé da letra no país. Ao todo, pelo menos 382 mil professores do total de 1,8 milhão de profissionais em atividade precisam de um diploma imediatamente, revela estudo que será lançado nesta quinta-feira pelo Ministério da Educação (MEC), com dados de 2007. Nesse contingente há 119 mil professores leigos, que cursaram no máximo até o ensino médio; 127 mil docentes com diploma de nível superior mas sem curso de licenciatura, exigido para o magistério; e 136 mil professores que têm apenas o curso de normal ou de magistério e não poderiam dar aulas para alunos da 5 à 8 série do ensino fundamental ou para o ensino médio, como fazem.

No ensino fundamental, Rio está entre os piores do país
É preciso ter pelo menos o curso de magistério para lecionar em creches, pré-escolas ou turmas da 1 à 4 série do ensino fundamental (1 ao 5 ano). Os chamados leigos, que representam 6,3% dos professores do país, portanto, não atendem à exigência mínima de formação do ponto de vista legal. Entre os 119 mil nesta situação, mais grave é o caso de um grupo de 15.982 profissionais que só cursaram o ensino fundamental. Desses, 3,8 mil atuam nas séries finais do fundamental (de 5 a 8 série) e 441 professores dão aulas no ensino médio - nível de ensino que eles próprios não têm.

Os 103 mil professores leigos com diploma de nível médio estão espalhados por 52.003 escolas, onde estudam 6,6 milhões de alunos. Outros 136 mil professores estão em situação irregular: concluíram apenas o magistério, mas lecionam nas séries finais do ensino fundamental (5 a 8) ou até no médio. Para dar aulas da 5 série em diante, a lei exige a graduação em curso de licenciatura. O MEC quer exigir que todos tenham diploma universitário. Projeto de lei nesse sentido será enviado esta quinta-feira ao Congresso.

Do total de 1,8 milhão de profissionais, 594.273 (31,5%) não têm curso superior e outros 127 mil (6%) são formados em outras áreas. Mesmo considerando apenas docentes com nível superior, é grande a proporção de profissionais que lecionam no ensino médio sem formação específica para a respectiva disciplina.

27 maio 2009

26 maio 2009

ESCADAS DE CARACOL



Clique sobre a imagem para ampliá-la (foto ney)

Escadas de caracol sempre são misteriosas: conturbam...
Quando as desce, a gente se desparafusa... Quando a gente as sobe, se parafusa (...)

Pensa, pensa - o quanto antes! Naquelas pobres escadarias de madeira das casas pobres - escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos, escada abaixo, de crianças deixando a escola... Pensa na escada do poema, que tu comigo vens descendo...
Mario Quintana.

25 maio 2009

JANELA



















Clique sobre a imagem para ampliá-la (foto ney)

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. Carlos Drummond de Andrade.

Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer. Frans Kafka.

Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto, é como se abrisse o mesmo livro numa página nova... Mário Quintana.

A gente não se liberta de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau. Mark Twain.

Um livro e como uma janela. Quem não o lê, é como alguém que ficou distante da janela e só pode ver uma pequena parte da paisagem. Kahlil Gibran.

A ALEGRIA...


"A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria".


24 maio 2009

Um pensamento na manhâ de domingo...


"Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade."

(Mario Quintana)

23 maio 2009

MEMÓRIA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.